quarta-feira, junho 18, 2003




e saber que se eu fosse uma esfera
eu me olharia a partir de meu centro,
onde pequenas pirâmides o atingissem.

talvez mágicas como as egípcias,
talvez de cristal como as das cartomantes,
mas ser uma esfera feita de pirâmides
seria meu olhar amoroso e melhor para comigo.

não me agradaria uma visão de ser uma esfera a reunir cunhas,
filhotes de rotações incompletas.
histórias pela metade, amores mal acabados.
coisas nunca terminadas.
prefiro a velocidade das revoluções completas.

saber que sou uma esfera
e estou grávida de ser sólida,
saber que posso ser vida que parte do centro da grande bola rumo ao espaço,
desejando profundamente que as pequenas pirâmides empurrem com suas pontas meu coração minúsculo,
fazendo-me explodir em dez mil vidas geométricas.

pulem, decolem,
rumo ao universo que desconheço a forma.
e quem sabe dividida serei mais mágica,
e me olhe inteira ainda que em pedaços,
cada parte comunicando-se à longa distância nas línguas da matemática.

sou uma esfera,
e que estardalhaço,
em miúdas pirâmides me desfaço,
milhares de foguetes rumando ao espaço,
odisséia geométrica de ardor tão humano.