ora, o silêncio jantava minha casa. em grande banquete. luzes apagadas e corpos dispostos em bandejas, nossas camas brancas. e comia a mim de forma primeira e voraz. uma fome gigante e com antecedentes. comia para depois regurgitar pasta de mim. até me colocar em pé novamente, cuspida, vomitada, mas não engolida de vez. talvez fosse uma forma de me comer aos poucos. ir me saboreando, até que eu não tivesse mais forças e cedesse de vez, morrendo logo ao entrar em contato com as enzimas de sua perigosa saliva.
e dessa vez, comia ainda mais lento. fazendo-me andar pelos cômodos da casa como fantasma em dor. meus passos não fazem barulho. minhas lágrimas são igualmente silenciosas. todos dormem em silêncio aqui, mesmo quando estão acordados. e as janelas me convidam, às vezes, com uma espécie de dó de mim, me chamando para sair logo daqui: que eu as visse de fora e cochichasse entre suas frestas as novidades do mundo que há depois do portão.
e eu tento fazer força de vida. aquela força em que você busca sair da labirintite. você lança o anzol esperando o prumo e o equilíbrio morder a isca. e não vem peixe. então você cai. mas em silêncio e devagar. como se estivesse com o corpo inteiro dentro de um espetacular e assustador poço de geléia. a cabeça para fora, respirando, com medo. os movimentos limitados e lentos. movimentos que beiram a paralisação. lambem as bordas da inércia.
e eu tento fazer força de vida. e eu tento fazer força de vida. encontrar palavras que diluam o gel. ou me dêem a isca certa. ou me façam de diamante, quebrando os dentes do silêncio. diamante amedrontado, com medo de virar peça de museu. mas eu pulso e sonho, e deus, como tenho medo. ainda sou gente que se mastiga fácil e se digere como qualquer carne de açougue.
e eu tento fazer força de vida. mas o silêncio em seu banquete era imperador e 'ininterrompível'. e eu só podia esperar. brincando de roda-gigante, numa altura nunca vista, sem querer, sem ter como fugir, até ser libertada, vomitada, empastada, estatelada, ao chão deitada como as três marias que sonham no céu que sempre fito.
caminhando com as pontas dos dedos, como se evitasse fazer barulho, o silêncio se vai. e eu levanto, em desespero, em grito. sair da geléia. movimentar-se. eu sonho e peço e ando e como e amo e amo e morro e temo e beijo e abraço e odeio e amo e amo e temo e peço e repito e repito e repito e grito e calo. calo. calo.
não. o silêncio voltou? voltou a espreitar minha casa e amor? e às vezes me dá loucuras. rápidas. ligeiras. ou é a verdade que se apresenta a mim, dizendo que em algum lugar do mundo, alguma espécie de verdade existe. nem que seja dentro de mim. é que às vezes acho que apenas engoli o silêncio, e sua grandiosidade me dá náuseas, pesadelos. seu peso em minha barriga me engole por dentro. e bêbada de silêncio acho que é o silêncio que me engole. mas se ouço passos na cozinha, passos de silêncio, passos como os de um pequeno pó de branca farinha, é meu dentro que está fora? ou moro dentro do silêncio?
e eu tento fazer força de vida. força de quem tenta entender. força de quem procura o teto de sua casa e acha a pele de sua barriga, por dentro. um estômago ao lado. um coração acima. um umbigo por fora. um mundo inteiro de por ques sem porquês. e eu tento fazer força gramatical. gravitacional. juntar as pequenas palavras e modificar a força da pontuação. registrar um novo pensamento, antes de repetir a frase em sua roupa nova. ganhar sentido mesmo em meio a um deserto de motivações. apenas ser. ou ser consciente de que se é. algo. enfim.
por que o silêncio me engole?
- e registro. sobrevivo. aprendo. tento. calculo. -
porque o silêncio me engole. -
e sei que posso tentar de novo. sei que há mais. e desafio as pessoas e os tempos verbais. e modifico o mundo, ainda que depois de surtada e alertada por esse tipo de dor. dor que morre quando constato que alerta estou. e modifico. modifico. porque eu engulo o silêncio. e se eu quiser, nova oração acrescento, porque eu engulo o silêncio e faço pouco da minha dor.
e dessa vez, comia ainda mais lento. fazendo-me andar pelos cômodos da casa como fantasma em dor. meus passos não fazem barulho. minhas lágrimas são igualmente silenciosas. todos dormem em silêncio aqui, mesmo quando estão acordados. e as janelas me convidam, às vezes, com uma espécie de dó de mim, me chamando para sair logo daqui: que eu as visse de fora e cochichasse entre suas frestas as novidades do mundo que há depois do portão.
e eu tento fazer força de vida. aquela força em que você busca sair da labirintite. você lança o anzol esperando o prumo e o equilíbrio morder a isca. e não vem peixe. então você cai. mas em silêncio e devagar. como se estivesse com o corpo inteiro dentro de um espetacular e assustador poço de geléia. a cabeça para fora, respirando, com medo. os movimentos limitados e lentos. movimentos que beiram a paralisação. lambem as bordas da inércia.
e eu tento fazer força de vida. e eu tento fazer força de vida. encontrar palavras que diluam o gel. ou me dêem a isca certa. ou me façam de diamante, quebrando os dentes do silêncio. diamante amedrontado, com medo de virar peça de museu. mas eu pulso e sonho, e deus, como tenho medo. ainda sou gente que se mastiga fácil e se digere como qualquer carne de açougue.
e eu tento fazer força de vida. mas o silêncio em seu banquete era imperador e 'ininterrompível'. e eu só podia esperar. brincando de roda-gigante, numa altura nunca vista, sem querer, sem ter como fugir, até ser libertada, vomitada, empastada, estatelada, ao chão deitada como as três marias que sonham no céu que sempre fito.
caminhando com as pontas dos dedos, como se evitasse fazer barulho, o silêncio se vai. e eu levanto, em desespero, em grito. sair da geléia. movimentar-se. eu sonho e peço e ando e como e amo e amo e morro e temo e beijo e abraço e odeio e amo e amo e temo e peço e repito e repito e repito e grito e calo. calo. calo.
não. o silêncio voltou? voltou a espreitar minha casa e amor? e às vezes me dá loucuras. rápidas. ligeiras. ou é a verdade que se apresenta a mim, dizendo que em algum lugar do mundo, alguma espécie de verdade existe. nem que seja dentro de mim. é que às vezes acho que apenas engoli o silêncio, e sua grandiosidade me dá náuseas, pesadelos. seu peso em minha barriga me engole por dentro. e bêbada de silêncio acho que é o silêncio que me engole. mas se ouço passos na cozinha, passos de silêncio, passos como os de um pequeno pó de branca farinha, é meu dentro que está fora? ou moro dentro do silêncio?
e eu tento fazer força de vida. força de quem tenta entender. força de quem procura o teto de sua casa e acha a pele de sua barriga, por dentro. um estômago ao lado. um coração acima. um umbigo por fora. um mundo inteiro de por ques sem porquês. e eu tento fazer força gramatical. gravitacional. juntar as pequenas palavras e modificar a força da pontuação. registrar um novo pensamento, antes de repetir a frase em sua roupa nova. ganhar sentido mesmo em meio a um deserto de motivações. apenas ser. ou ser consciente de que se é. algo. enfim.
por que o silêncio me engole?
- e registro. sobrevivo. aprendo. tento. calculo. -
porque o silêncio me engole. -
e sei que posso tentar de novo. sei que há mais. e desafio as pessoas e os tempos verbais. e modifico o mundo, ainda que depois de surtada e alertada por esse tipo de dor. dor que morre quando constato que alerta estou. e modifico. modifico. porque eu engulo o silêncio. e se eu quiser, nova oração acrescento, porque eu engulo o silêncio e faço pouco da minha dor.

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