i
janela aberta. que bom, vento. deixa meu cabelo voar. olhaí, olhaí, eu posso acelerar, não tem ninguém na estrada. adoro quando as árvores balançam com o vento. parecem meus cabelos. e essa música é tão grudenta. o que tem na outra estação? cadê? cadê? deixa aqui mesmo. música grudenta... olha a vaquinha. esse povo que vende caju na estrada... eu nunca pensei nesse povo que vende caju na estrada. mas papai sempre parava pra comprar caju e eu nunca pensei nesse povo. deixa eu pensar nesse povo... eles passam o dia na estrada e vendem caju. mas se vendem, eles devem catar. ir colher. deve ser divertido. mas não deve ser divertido vender na estrada. tô me sentindo mal por pensar nesse povo que eu nunca pensei só pra não ter que pensar nele. eu não posso pensar nele. eu não posso pensar nele. mas eu já estou pensando. vamos... vamos... pense no vento, pense no vento. estou pensando. é bom vento nos cabelos. é bom vento nos cabelos. eu queria ser meus cabelos. um fio só, já estava bom. eu ia ter milhares de amigos voando também. sou tão idiota por pensar em cabelos. mas seria mais se pensasse nele. não posso pensar nele. não posso pensar nele. mas quando digo que não posso já estou pensando. ô, meu deus. ô, meu deus. será que ele está reagindo bem a tudo isso? é melhor eu parar pra comprar caju. caju não, castanha. não como caju mesmo. se bem que gosto do suco. vou comprar caju sim.
- moça, me vê uns cajus aí.
- quantos?
- uns quinze.
- olha aqui a sacolinha.
- quanto que foi?
- dez.
dez de janeiro foi o dia em que nos casamos. e eu tinha engravidado dele antes do casamento. e aí tivemos felipe e continuamos juntos. felipe cresceu, tá com dez anos já. dez. dez. não posso pensar neles. o que é dez na estrada? eu posso contar dez vacas? eu tenho que contar dez vacas daqui pra maceió. e já está perto. se eu não contar dez vacas daqui pra maceió significa que eu tô fazendo algo errado e que é pra eu voltar, e se eu contar, tá tudo bem, eu fiz o que era certo mesmo, eles vão entender. felipe já é um homenzinho e eduardo... eduardo... eu não posso pensar nele... eu não posso pensar nele. meu cabelo, o vento. o vento. o vento. o vento. o vento. o que eu posso pensar? é bom pensar no futuro. isso. vou pensar no que há de bom. o que pode vir de bom. eu vou chegar numa cidade legal, vou achar um emprego legal e vou ganhar bem, e vou poder pagar as aulas de tuba. e vou tocar tuba como ninguém. eu sempre gostei de tubas. sempre gostei de tubas. eu queria ser musicista. eu queria tocar em orquestras. mas meu deus, eu fui tão besta. e felipe e eduardo não me deixavam tempo livre pra ser o que eu queria. não me deixavam. eles vão entender. eu vou ser uma grande tubista. eu não sei se o nome é tubista. meu marido e meu filho vão dizer, ah, ela partiu e se tornou uma grande música. não é música. não me transformei em canção. é musicista, não é? deus, estou tão nervosa. eles vão entender. eu larguei tudo pra ser feliz. eduardo dizia que queria que eu fosse feliz. então é isso que estou fazendo. vou aprender tuba. vou viajar o mundo inteiro. e vou morrer com a certeza de que fiz o que foi certo. isso, isso. eu tava cansada de tudo mesmo. que vida era aquela? culpa por não saber tuba, por não ter ido atrás dessa coisa faminta que tem em mim por tocar. tudo tão grave. tóo tóo toooon. tudo grave. porque de agudos, basta minha vida. tudo sempre tão agudo. fino. fino. tão ralo que grita. gasguitamente grita. minhas coisas, meus pensamentos, minhas dores. e eu tenho poucas coisas. e o que eu tenho é tão agudo. preciso de graves, meu deus. ai ai ai estou chegando em maceió e não contei nenhuma vaca...meu deus, não quero voltar... não quero..talvez eu devesse substituir as vacas por casas com antenas parabólicas. isso, isso. ai, um rebanho... um rebanho. um rebanho. dez vacas? não. dez vezes dez. e mais dez. e dez. o preço dos cajus.
(...continua).
(ou não).
janela aberta. que bom, vento. deixa meu cabelo voar. olhaí, olhaí, eu posso acelerar, não tem ninguém na estrada. adoro quando as árvores balançam com o vento. parecem meus cabelos. e essa música é tão grudenta. o que tem na outra estação? cadê? cadê? deixa aqui mesmo. música grudenta... olha a vaquinha. esse povo que vende caju na estrada... eu nunca pensei nesse povo que vende caju na estrada. mas papai sempre parava pra comprar caju e eu nunca pensei nesse povo. deixa eu pensar nesse povo... eles passam o dia na estrada e vendem caju. mas se vendem, eles devem catar. ir colher. deve ser divertido. mas não deve ser divertido vender na estrada. tô me sentindo mal por pensar nesse povo que eu nunca pensei só pra não ter que pensar nele. eu não posso pensar nele. eu não posso pensar nele. mas eu já estou pensando. vamos... vamos... pense no vento, pense no vento. estou pensando. é bom vento nos cabelos. é bom vento nos cabelos. eu queria ser meus cabelos. um fio só, já estava bom. eu ia ter milhares de amigos voando também. sou tão idiota por pensar em cabelos. mas seria mais se pensasse nele. não posso pensar nele. não posso pensar nele. mas quando digo que não posso já estou pensando. ô, meu deus. ô, meu deus. será que ele está reagindo bem a tudo isso? é melhor eu parar pra comprar caju. caju não, castanha. não como caju mesmo. se bem que gosto do suco. vou comprar caju sim.
- moça, me vê uns cajus aí.
- quantos?
- uns quinze.
- olha aqui a sacolinha.
- quanto que foi?
- dez.
dez de janeiro foi o dia em que nos casamos. e eu tinha engravidado dele antes do casamento. e aí tivemos felipe e continuamos juntos. felipe cresceu, tá com dez anos já. dez. dez. não posso pensar neles. o que é dez na estrada? eu posso contar dez vacas? eu tenho que contar dez vacas daqui pra maceió. e já está perto. se eu não contar dez vacas daqui pra maceió significa que eu tô fazendo algo errado e que é pra eu voltar, e se eu contar, tá tudo bem, eu fiz o que era certo mesmo, eles vão entender. felipe já é um homenzinho e eduardo... eduardo... eu não posso pensar nele... eu não posso pensar nele. meu cabelo, o vento. o vento. o vento. o vento. o vento. o que eu posso pensar? é bom pensar no futuro. isso. vou pensar no que há de bom. o que pode vir de bom. eu vou chegar numa cidade legal, vou achar um emprego legal e vou ganhar bem, e vou poder pagar as aulas de tuba. e vou tocar tuba como ninguém. eu sempre gostei de tubas. sempre gostei de tubas. eu queria ser musicista. eu queria tocar em orquestras. mas meu deus, eu fui tão besta. e felipe e eduardo não me deixavam tempo livre pra ser o que eu queria. não me deixavam. eles vão entender. eu vou ser uma grande tubista. eu não sei se o nome é tubista. meu marido e meu filho vão dizer, ah, ela partiu e se tornou uma grande música. não é música. não me transformei em canção. é musicista, não é? deus, estou tão nervosa. eles vão entender. eu larguei tudo pra ser feliz. eduardo dizia que queria que eu fosse feliz. então é isso que estou fazendo. vou aprender tuba. vou viajar o mundo inteiro. e vou morrer com a certeza de que fiz o que foi certo. isso, isso. eu tava cansada de tudo mesmo. que vida era aquela? culpa por não saber tuba, por não ter ido atrás dessa coisa faminta que tem em mim por tocar. tudo tão grave. tóo tóo toooon. tudo grave. porque de agudos, basta minha vida. tudo sempre tão agudo. fino. fino. tão ralo que grita. gasguitamente grita. minhas coisas, meus pensamentos, minhas dores. e eu tenho poucas coisas. e o que eu tenho é tão agudo. preciso de graves, meu deus. ai ai ai estou chegando em maceió e não contei nenhuma vaca...meu deus, não quero voltar... não quero..talvez eu devesse substituir as vacas por casas com antenas parabólicas. isso, isso. ai, um rebanho... um rebanho. um rebanho. dez vacas? não. dez vezes dez. e mais dez. e dez. o preço dos cajus.
(...continua).
(ou não).

<< Home