sexta-feira, novembro 01, 2002

minhas fotos de infância confirmam:
cresci amando a água
e ainda a amo.
mas meu amor pelo vento cresceu
e alcançou meus poemas
em bolhas de sabão.

meu corpo ansioso o sente
o tempo inteiro a beijar meus dias,
soprando a poeira de meus livros
e circulando como alma pelo meu quarto.

e meus pequenos olhos sempre sentem
que o vento alisa meus cílios,
e minha pele acorda num arrepio,
quase um bocejo de pele,
quando o vento me acaricia.

o vento é uma criança,
que se abraça com as roupas de meu varal,
dançando horas seguidas
sob a sombra do meu jambeiro,
e depois corre ligeiro,
arrastando umas gotinhas de água
perdidas no chão de pedras de meu quintal.

então chega o entardecer,
quando as cores do mundo trabalham
e amam,
deslizando pelo céu mutante,
pintando estrelas no horizonte.

é quando, secretamente, o vento me procura -
e quando fala traz o cheiro dos lírios
que dependuram-se a querer espiar
para dentro da janela de onde durmo! -
e diz que à noite não tem descanso -
vento não sabe o que é cansaço -
e confessa que inveja os humanos
porque estes quando dormem
sonham que voam,
e diz-me triste:
"às vezes queria voar sem ter que estar acordado!".